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Pesquisador relata a expedição de pesquisa nos EUA em busca de arquivos da retomada linguística pataxó

Escrito por Heleno Rocha Nazário | Publicado: Quarta, 08 de Janeiro de 2020, 14h28 | Última atualização em Quarta, 08 de Janeiro de 2020, 14h38 | Acessos: 2348

O professor Paulo está sentado à mesa ao lado de duas pesquisadoras em um evento chamado Mesa Políticas Linguísticas no Leste Brasileiro. foto do acervo pessoal prof. Paulo de Tássio Borges da SilvaO incêndio no Museu Nacional, ocorrido em setembro de 2018, destruiu acervos inestimáveis para vários campos do conhecimento. Foi para buscar recuperar algo do que foi consumido pelo fogo que uma iniciativa conjunta do museu mantido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Smithsonian Institution, dos Estados Unidos, promoveu uma expedição de pesquisa em 2019. Quatro discentes do PPG em Linguística e Linguas Indígenas (Profllind/UFRJ) foram procurar informações e documentos dos idiomas de povos originários brasileiros, e o professor Paulo de Tássio Borges da Silva, atuante no Campus Paulo Freire e no Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-raciais (PPGER), participou dessa comitiva. O boletim informativo Conexão UFRJ publicou uma reportagem sobre o trabalho desenvolvido pelos pesquisadores do Proflind, e o professor Paulo de Tássio fala sobre o que procurou e encontrou nesta entrevista concedida à Assessoria de Comunicação Social da UFSB.

Como foi o trabalho na expedição? Que resultados se pode compartilhar com a comunidade da UFSB e, em especial, com a comunidade pataxó?

A expedição de pesquisa foi uma parceria entre a Smithsonian e o Museu Nacional/UFRJ, tendo o financiamento da Fundação Fulbright. Meu trabalho estava direcionado à procura de vestígios sobre arquivos das línguas indígenas do que hoje é o Nordeste brasileiro, especificamente sobre a língua do povo Pataxó.

Parte do trabalho na expedição foi apresentado ao Museu Nacional no final de setembro, junto ao Programa de Pós-Graduação em Linguística e Línguas Indígenas, com a pesquisa Políticas Linguísticas de Revitalização entre os Pataxó do Território Kaí-Pequi, que tem indicação de ser publicada em livro. O trabalho teve como objetivo analisar as Políticas Linguísticas de Revitalização/Retomada do Patxôhã pelos (as) Pataxó do Território Kaí-Pequi (Cumuruxatiba), políticas essas que têm se interseccionado com a construção da Educação Escolar Indígena e os fluxos identitários do povo Pataxó na retomada dos seus territórios materiais (Terra) e linguísticos. Os Pataxó de Cumuruxatiba/Prado vêm rasurando alguns dos discursos da História, da Antropologia e da Linguística, construindo processos linguísticos aos quais atitudes linguísticas fundadas dentro da colonialidade não têm dado conta de responder, o que considero importante contribuição na descontrução de certos aparelhamentos culturais e linguísticos.

Parte dos meus estudos eu venho compartilhando no Campus Paulo Freire com projetos de pesquisa e extensão, como o projeto de extensão Paisagens Linguísticas no Extremo Sul Baiano e o projeto de pesquisa Paisagens de Políticas Linguísticas na Revitalização do Patxohã entre os Pataxó do Território Kaí-Pequi. Com os projetos já tivemos palestras e minicursos sobre políticas linguísticas e línguas indígenas no Campus Paulo Freire e na Aldeia Kaí, em Cumuruxatiba, colaborando na formação de professores (as) indígenas. Há uma série de formações que foram interrompidas pelo contingenciamento nos gastos da Universidade, mas estamos com esperança que essas atividades sejam retomadas o mais breve possível, uma vez que o transporte para a ida até as comunidades é necessário. Vale dizer que, dentro do curso de Licenciatura em Linguagens e Inovação no Campus Paulo Freire, o campo das línguas indígenas vem sendo fomentado também com o oferecimento de componentes curriculares livres, como o de Introdução aos Estudos em Línguas Indígenas, que ministrei no quadrimestre 2019.3. O componente foi ministrado metapresencialmente, mas mais de uma dezena de estudantes quiseram estar no momento da transmissão da aula, o que se configurou com um componente presencial também. A partir das aulas foram produzidos episódios de podcast sobre os conteúdos trabalhados no componente curricular, o que tem permitido à discussão ultrapassar os muros, os tempos-espaços da Universidade, ganhando ressonância em aldeias, escolas etc. O retorno tem sido bem interessante por parte dos estudantes e de quem acompanha os podcasts/aulas.

O podcast tem como título o nome do componente curricular Introdução aos Estudos em Línguas Indígenas, sendo composto de seis episódios: episódio 01 – Introdução aos Estudos em Línguas Indígenas; episódio 02 – Línguas Gerais no Brasil; episódio 03 – Tronco Linguístico Tupi; episódio 04 – Tronco Linguístico Macro-Jê; episódio 05 – Políticas Linguísticas do Povo Omágua e o episódio 06 – Políticas Linguísticas de Retomada/Revitalização de Línguas Indígenas no Nordeste Brasileiro. O podcast já teve mais de 300 reproduções no Brasil e em Portugal, estando disponível no Anchor e no Spotify. Isso também é internacionalização da UFSB.

 

Pesquisa numa das bibliotecas da Smithsonian Acervo pessoal prof. Paulo de Tássio Borges da Silva

Em relação à expedição, foi possível resgatar na Smithsonian algo do que foi destruído no incêndio do Museu? Que contribuições foram adicionadas ao Museu?

A expedição na Smithsonian serviu para ampliar a discussão sobre retomada/revitalização de línguas indígenas no Brasil, bem como intercambiar experiências em arquivos de acervos linguísticos. Na Smithsonian, tive contato com os teóricos dos Estados Unidos e com as experiências de revitalização linguística de outros povos, não só dos estadunidenses. Tive acesso a materiais de revitalização de línguas dos continentes africano e asiático, por exemplo. São experiências e diálogos que vão colaborar nas comunidades que estão em processo de retomada/revitalização linguística.

Acredito que a grande contribuição ao Museu Nacional é a discussão sobre a retomada e revitalização das línguas indígenas, uma discussão que vem ganhando corpo na instituição e no Brasil. Em 2019, tivemos um grande evento em comemoração à linguística no Museu Nacional, o 60+1 anos Linguística e Línguas Indígenas: línguas, acervos, olhares e vozes indígenas no Museu Nacional/UFRJ, onde tivemos duas mesas redondas sobre retomada/revitalização de línguas indígenas. Uma das mesas, coordenada por mim, teve como título Políticas Linguísticas de Revitalização no Leste Brasileiro: experiências Pataxó, tendo a presença de Diana Pataxó e Sirleide Pataxó, mestrandas do PPGER. Pautar essa discussão numa instituição como o Museu Nacional é algo muito importante e potente.

 

Como era seu projeto de pesquisa no Profllind antes da expedição e o que ele é no momento, após o retorno dos EUA?

Na minha tese de doutorado em educação, a discussão sobre revitalização linguística entre o Povo Pataxó apareceu numa discussão de língua como dispositivo biopolítico de normalização da identidade indígena no Brasil. A análise foi feita a partir da Linguística Queer. No Programa de Pós-Graduação em Linguística e Línguas Indígenas, foi apresentada uma proposta de pesquisa dos processos de revitalização da língua Pataxó a partir da Educação Escolar Indígena. Com o retorno da expedição na Smithsonian, meu interesse se direcionou às políticas de retomadas e revitalização linguística. Esse tem sido meu campo de pesquisa nos estudos linguísticos.

 

Que contribuições a expedição nos EUA agregou para analisar e atuar no processo de retomada linguística dos pataxós? 

A expedição não contribui apenas com os processos de retomada linguística do Povo Pataxó, mas de todos os povos indígenas, povos quilombolas, povos de terreiros, ciganos e outros povos tradicionais. Comigo estavam outras pesquisadoras atuando na revitalização da língua Tupi no Nordeste brasileiro, da língua Omágua na região Amazônica, bem como aspectos linguísticos das línguas de povos indígenas que habitavam e habitam a Costa Verde do Rio de Janeiro. A expedição contribui também no fortalecimento do campo da retomada/revitalização de línguas no Brasil, tornando-o legítimo, com uma maior possibilidade de apoios e financiamentos.

Quanto ao Povo Pataxó, sobretudo os de Cumuruxatiba/Prado, há mais de uma década temos construído um trabalho em torno de políticas de retomada/revitalização por meio intercâmbios, seminários, formação de professores (as) indígenas, produção de materiais didáticos, entre outros. Não posso deixar de mencionar o apoio do Centro de Estudos e Pesquisas Intercultural e da Temática Indígena (CEPITI), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) Campus X, Teixeira de Freitas, centro onde iniciei meus estudos e pesquisas em 2006 e que tem sido de grande relevância para os povos indígenas da Bahia.

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