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Estudo indica importância do preparo emocional para o luto na formação de profissionais de Enfermagem

Escrito por Heleno Rocha Nazário | Publicado: Quarta, 20 de Janeiro de 2021, 15h57 | Última atualização em Quarta, 20 de Janeiro de 2021, 16h11 | Acessos: 455

Enfermeira agachada contra a parece chorando e colega oferecendo apoioQuem cuida dos cuidadores? A pergunta é uma das questões mais relevantes no momento atual de pandemia de covid-19. Com a intensidade e duração do espalhamento da doença em diversos países, os profissionais de saúde nos hospitais estão sob enorme pressão e risco. O número de mortes de pacientes é um dos fatores que provocam desgaste nas equipes. 

Em investigação a partir da revisão bibliográfica sobre o efeito da perda de pacientes em profissionais da Enfermagem, pesquisadores da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) constataram a carência de preparo desses profissionais para lidar com as emoções decorrentes desse tipo de luto ao qual estão sujeitos por ofício. O artigo Luto em profissionais de Enfermagem frente ao processo de morte e morrer de paciente sob seus cuidados: uma revisão bibliográfica sintética, publicado na revista Psicologia em Foco, é assinado pelas acadêmicas Brenda de Brito Peito e Milena Amaral Melo, graduadas no Bacharelado Interdisciplinar em Saúde e atualmente estudantes de Medicina no Centro de Formação em Ciências da Saúde (CFCS), no Campus Paulo Freire, em Teixeira de Freitas, e pelo professor Cristiano da Silveira Longo, que leciona e pesquisa no Centro de Formação em Ciências Humanas e Sociais (CFCHS/UFSB), no Campus Sosígenes Costa, em Porto Seguro.

O levantamento exposto no artigo foi feito a partir da Análise de Conteúdo aplicada a publicações sobre o luto de enfermeiros e enfermeiras quando da morte de pacientes. A equipe selecionou artigos que consistem em entrevistas com profissionais de enfermagem acerca do processo de morte e morrer dos pacientes sob seus cuidados e a elaboração do luto. Os resultados a partir desse recorte da literatura mostram que essa categoria profissional sente dificuldade de organizar as emoções após um falecimento de paciente sob seus cuidados, tanto pela sensação de fracasso em preservar uma vida quanto pela ausência de uma formação que dote o profissional dos saberes para lidar com essa perda. E isso se deve ao fato de que os profissionais dessa especialidade convivem diretamente com as pessoas internadas, estabelecendo muitas vezes relacionamento de cuidado e afeto. É a perda sentida em duas dimensões: a do trabalhador da saúde e a pessoal.

Como consequência da dinâmica entre o sentimento da perda e a postura profissional exigida, os profissionais da Enfermagem tendem a ter dificuldades de elaborar o luto, bloqueando as emoções e traduzindo esse dilema em sofrimento psíquico e problemas para exercer a atividade laboral, por medo de vivenciar novo processo de sofrimento e morte de paciente. Os autores apontam que o problema é tão frequente que pode ser tido como caso de saúde pública, dado o alto número de enfermeiros afetados nesse contexto. A proposta do artigo é a inclusão de uma educação para a morte no currículo dos cursos da área de Enfermagem, visando pode dotar os futuros profissionais de capacidade para vivenciar o luto de modo construtivo e preservar sua saúde mental.

Os responsáveis pelo estudo responderam algumas perguntas da ACS por e-mail sobre a pesquisa e falam sobre a proposta para aprimorar a formação de novos profissionais.

ACS: Pode parecer estranho para quem não é da área ouvir sobre a construção social da experiência da morte e do morrer, como os autores mencionam no artigo. E hoje há mais recursos para prolongar a vida, ou adiar a morte. O processo de falecer é mais tabu hoje que em épocas passadas?

Brenda, Milena e Cristiano: Sim, de fato pode parecer estranha a ideia de que a forma como percebemos e vivenciamos a experiência da morte e do morrer depende do contexto histórico e temporal em que vivemos, dos signos culturais internalizados por nós ao longo de nossa socialização. Nesse sentido, cada povo, cultura ou civilização constrói representações, significados e sentidos próprios diante da morte: trata-se de uma construção social tais representações, que nos informam modos de perceber, sentir e se comportar, gerando, portanto, atitudes determinadas diante da morte. Talvez, por conta das representações judaico-cristãs, a morte nos parece um evento trágico, triste, embora haja a promessa da vida eterna, no paraíso, para os merecedores; por outro lado, em nossa “pós-modernidade líquida”, a própria vida humana deixa de ter valor, tornando-se desprezível diante dos objetos, das coisas, da propriedade.

Além disso, o avanço tecnológico se tornou aliado na postergação da morte. A descoberta de metodologias que possibilitem o enfrentamento do fim da vida, garantindo a qualidade de vida e dignidade humana, pode se apresentar como duas faces de uma mesma moeda: por um lado permitir que haja um fim legítimo e, por outro, manutenção da vida a qualquer custo. Tendo isso em vista, quando os esforços não são suficientes, tende-se a gerar sentimentos de frustração e impotência no profissional de saúde. 

 

ACS: Que tipos de estratégias podem aprimorar a formação de profissionais da Enfermagem para elaborar melhor o luto? Há alguma experiência pedagógica que se possa destacar nesse sentido?

Brenda, Milena e Cristiano: Para aprimorar a formação de profissionais da enfermagem, e da saúde em geral, em relação a forma de lidar e elaborar o luto, deve haver mais tempo específico nos currículos dedicado ao estudo da “educação para a morte”, em suas amplas facetas: vivência de perdas, processo de luto, sentimentos diante da morte, estratégias para lidar com a morte, vínculo e empatia, compaixão, relação paciente-profissional de saúde, experiências formativas envolvendo pacientes terminais, estudo da morte em diferentes culturas, e assim por diante. Como bem apontam Oliveira-Cardoso e Santos (2017), “os cursos de Educação para a Morte têm sido propostos como uma tentativa de preencher uma lacuna importante da formação acadêmica na área da saúde, trazendo à tona temas que, frequentemente, são negligenciados no ensino, como o processo de morrer, atitudes frente à morte, cuidados paliativos, luto do profissional, dentre outros. Esses cursos necessitam ter objetivos claramente definidos, configurando uma proposta pedagógica que busca introduzir uma postura humanista e humanizada em cursos fortemente tecnicistas.”

Aqui na UFSB, no Bacharelado Interdisciplinar em Saúde (BIS), ofertamos o componente curricular Bases Psíquicas e Culturais da Morte, Perda e Luto (60 horas), com a seguinte ementa: “Ritualização, processos psicológicos e culturais da morte e luto. Diagnósticos terminais: processos de enfrentamento (coping) e relações familiares. Introdução a cuidados paliativos. Aspectos bioéticos da morte. Suicídio. Morte e desenvolvimento humano. Educação para/sobre a morte. Profissionais de saúde diante da morte”.  Trata-se de uma experiência formativa muito rica e relevante para nossos estudantes da área da saúde, mas ainda insuficiente. Algumas instituições de ensino têm ofertado ainda cursos e especializações em Tanatologia, o estudo científico da morte, buscando sanar estas lacunas. 

 

ACS: A perspectiva do preparo dos profissionais de Enfermagem para lidar com a morte, a educação para a morte como se menciona no artigo, é também uma questão de saúde mental dessa categoria de trabalhadores. Que cuidados se deve ter nessa discussão, uma vez que a função de preservar vidas é primordial para a área?

Brenda, Milena e Cristiano: Esse ponto é crucial. Não podemos negligenciar a saúde mental dos profissionais de saúde, para que possam bem cuidar de seus pacientes; mas, para tanto, é preciso “cuidar dos cuidadores”. Um profissional de saúde em intenso estado de sofrimento mental diante do estresse de se lidar com a morte (ainda mais em tempos de pandemia que já ceifou mais de 200 mil vidas no Brasil) pouco conforto poderá levar a pacientes e familiares sob seus cuidados. É preciso cuidar da saúde mental de quem cuida dos outros. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou recentemente que “a pandemia da COVID-19 pode aumentar os fatores de risco para suicídio, incitando as pessoas a falarem abertamente e de forma responsável sobre o assunto. (...) O coronavírus está afetando a saúde mental de muitas pessoas. Estudos recentes mostram um aumento da angústia, ansiedade e depressão, especialmente entre os profissionais de saúde. Somadas às questões de violência, transtornos por consumo de álcool, abuso de substâncias e sentimento de perda, tornam-se fatores importantes que podem aumentar o risco de uma pessoa decidir tirar a própria vida."

Como já é de conhecimento de todos a partir de diversos estudos científicos, o índice de suicídio é maior em profissionais da saúde durante a pandemia: “Uma grande equipe de pesquisa destacou que, juntamente com evidências de aumento dos riscos de burnout e depressão, os médicos possuem uma taxa de suicídio mais alta do que a população em geral. Além disso, os problemas de saúde mental estão aumentando entre profissionais de saúde na linha de frente da pandemia do COVID-19. Um estudo recente com profissionais de saúde que estão no epicentro do surto de COVID-19 na China, descobriu que mais da metade das pessoas sofreu com efeitos psicológicos, incluindo depressão, insônia e angústia.”

 

ACS: Estamos vivendo um período pandêmico com alta quantidade de mortos no mundo todo, e relatos de exaustão das equipes de atendimento diante da contínua e intensa demanda. À parte os aspectos epidêmicos, como uma formação que equipe o profissional da Enfermagem para elaborar o luto poderia ajudar nesse cenário? 

Brenda, Milena e Cristiano: Uma boa formação nessa direção tenderia a minimizar a enorme carga de sofrimento psicológico vivenciado pelos profissionais de saúde diante da morte e do morrer de seus pacientes, e dos familiares envolvidos no processo. Ao desenvolver certas habilidades e competências cognitivas e emocionais para lidar com a morte, neste contexto de atuação profissional, os profissionais preservariam sua saúde mental, ao mesmo tempo em que poderiam prestar mais auxílio e conforto psicológico aos pacientes e seus familiares. Da mesma forma, é fundamental que os profissionais de saúde tenham suporte psicológico (presencial ou virtualmente) eles próprios, individual ou em grupo, na linha de “cuidar do cuidador”, evitando assim adoecimento psíquico, preventivamente.

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